
Rivais dentro de campo, mas parceiros na administração do Maracanã, Flamengo e Fluminense voltaram a se manifestar nesta sexta-feira (25) contra o fim das bets pouco horas antes de o governo Lula (PT) anunciar a proibição completa das apostas e jogos online no Brasil.
O rubro-negro é patrocinado pela Betano, com contrato estimado em R$ 268 milhões por ano, enquanto o tricolor tem parceria com a Superbet e recebe R$ 53 milhões por temporada.
Em mensagens publicadas nas redes sociais, os clubes alegaram que a proibição repentina abala o planejamento financeiro do futebol brasileiro, cria insegurança jurídica com a quebra de contratos, não abre uma janela de tempo para adaptação e dá espaço para uma expansão do mercado clandestino de bets.
Um exemplo dado pelo Fluminense é a dificuldade na coleta de uniformes distribuídos em lojas pelo Brasil com a logomarca da Betano, em que há estoque de seis meses antes da próxima reposição. “Uma mudança abrupta gera prejuízos e pode custar milhares de empregos em toda a cadeia”, diz a nota.
O debate sobre a proibição das apostas é legítimo e não deve ser interditado. Há preocupações reais com endividamento e vício, mas qualquer decisão precisa considerar os seguintes pontos: • Segurança jurídica e previsibilidade: empresas que cumpriram a regulamentação e terceiros que firmaram contratos não podem ser surpreendidos de um dia para o outro. O clube assumiu compromissos financeiros para este e os próximos anos contando com esses recursos. Um exemplo concreto: as lojas do Fluminense têm seis meses de estoque de camisas com a marca do patrocinador master. Uma mudança abrupta gera prejuízos e pode custar milhares de empregos em toda a cadeia. • Efetividade da medida: proibir as empresas reguladas não acaba com as apostas. O mercado clandestino tende a ocupar esse espaço, sem fiscalização, sem tributação e sem nenhuma proteção ao apostador. • Impacto no esporte: os recursos não sustentam apenas o futebol profissional. Eles financiam categorias de base, futebol feminino e esportes olímpicos, que empregam centenas de atletas e profissionais no clube. • Arrecadação pública: o mercado regulado gerou bilhões em tributos e destinações previstas em lei para esporte, seguridade social, segurança pública, educação e saúde. Sem ele, esses recursos precisarão vir de outra fonte. Defendemos, no mínimo, um período de transição adequado caso haja mudanças. O caminho deve ser guiado por dados concretos e pela efetividade de cada alternativa.
— Fluminense F.C. (@FluminenseFC) September 25, 2026
Já o Flamengo argumentou que havia espaço para endurecer as regras dentro da regulação vigente sem aboli-las repentinamente. “Não se pode criar uma regra, levar empresas e instituições a assumir compromissos com base nela e, de um dia para o outro, mudar todo o marco regulatório”, criticou.
O Brasil levou anos discutindo como regulamentar as apostas esportivas. O Congresso aprovou, o governo regulamentou, empresas pagaram para operar legalmente no país, fizeram investimentos e passaram a cumprir regras de fiscalização, tributação e proteção ao consumidor. Não se pode criar uma regra, levar empresas e instituições a assumir compromissos com base nela e, de um dia para o outro, mudar todo o marco regulatório. Nenhuma regulamentação é intocável. Se existem problemas, as regras precisam ser aperfeiçoadas. Se precisam ser mais duras, que sejam. Quem descumpre a lei deve ser punido. Mas existe uma diferença fundamental entre aperfeiçoar uma regulamentação e simplesmente desmontá-la. Isso é uma questão de segurança jurídica. E segurança jurídica não interessa apenas às empresas de apostas. Interessa a qualquer pessoa, empresa ou instituição que invista, contrate e faça planos de longo prazo no Brasil confiando nas regras estabelecidas pelo próprio Estado. A mudança atinge em cheio o esporte brasileiro. Uma decisão dessa dimensão afeta o futebol profissional, as categorias de base, o futebol feminino, os esportes olímpicos e os campeonatos. O esporte brasileiro não pode ser analisado apenas a partir da realidade financeira dos clubes de maior receita. E não são atingidos apenas os clubes, é uma cadeia que recebe um impacto imediato: empregos diretos e indiretos, empresas de comunicação, marketing e tecnologia, fornecedores, arenas, prestadores de serviços e toda uma cadeia econômica. Atinge também a arrecadação pública. O mercado regulado gera recursos por meio de impostos e das destinações previstas em lei, que chegam aos cofres públicos e são destinados a áreas de interesse da sociedade. Enfraquecer o mercado legal pode produzir uma combinação especialmente ruim: menos recursos para o esporte e menos arrecadação para o país. E o brasileiro ficará mais protegido? Essa talvez seja uma das perguntas centrais dessa discussão. Proibir as empresas que operam legalmente não significa acabar com as apostas. O jogo não desaparece e o mercado clandestino, que representa parcela expressiva da atividade, vai crescer e ocupar esse espaço. Pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada em maio de 2026 em todo o país com 2.291 apostadores, aponta a presença relevante de práticas associadas ao mercado ilegal. Estudo da LCA Consultores, baseado nessa pesquisa, estima que entre 38% e 44% do valor apostado online no Brasil ocorra atualmente em plataformas clandestinas. Há um dado particularmente importante: a participação estimada do mercado ilegal caiu depois da regulamentação, passando daquela faixa de 41% a 51% em 2025 para 38% a 44% no primeiro semestre de 2026. O jogo não vai acabar com uma canetada. O que acaba é a parte que o Brasil consegue regular, fiscalizar, tributar e responsabilizar. E o resultado pode ser menos segurança para quem investe, menos recursos para o esporte e para o país e menos capacidade de fiscalização sobre a atividade. O Brasil precisa combater o jogo ilegal. Precisa proteger sua população. Mas também precisa preservar a segurança jurídica, a capacidade de investimento e a sustentabilidade de suas instituições esportivas. O esporte brasileiro não pode ser enfraquecido por uma decisão que não elimina o jogo, não elimina o mercado ilegal e ainda coloca em risco os investimentos, os empregos e os compromissos construídos dentro das regras que o próprio país estabeleceu.
— Flamengo (@Flamengo) September 25, 2026
Os demais clubes dos chamados doze grandes não se manifestaram até a publicação deste texto.
No início da semana, quando o governo começou a admitir a possibilidade do veto total, times como Corinthians, Cruzeiro, Botafogo, São Paulo, Palmeiras, Atlético-MG e Vasco também se juntaram ao manifesto. As publicações foram criticadas por torcedores, que alegaram conivência com as empresas e com o endividamento dos apostadores.
Como mostrou a Coluna do Túlio, o diálogo do governo com os clubes para contornar a questão deve ficar para depois do período eleitoral. A ideia é avaliar formas de compensar parte da perda de receitas provocada pelo encerramento dos contratos de patrocínio com as empresas de apostas.
Bets fazem alerta
Em nota, a ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) e o IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável) disseram que 31 milhões de apostadores serão empurrados para o mercado ilegal com a proibição. As entidades também disseram que há risco de perda de arrecadação de R$ 73 bilhões de 2027 a 2030.
Fonte: Portal CidadeVerde.
Confira esta e outras matérias na íntegra pelo link: https://cidadeverde.com/esporte/463621/dupla-fla-flu-critica-quebra-de-contratos-com-veto-a-bets
