
A primeira reação de muitas pessoas ao acordar é esticar braços, pernas e costas com força, na tentativa de “destravar” o corpo e evitar dores ao longo do dia. O hábito, porém, pode ter efeito contrário quando envolve puxões, movimentos bruscos ou permanência prolongada em posições desconfortáveis.
Ao despertar, o organismo ainda está saindo de um período de inatividade. Músculos e articulações podem apresentar rigidez temporária, e o corpo precisa de alguns minutos para retomar movimentos com amplitude e coordenação. Nesse momento, um alongamento intenso pode gerar tensão de proteção, desconforto e irritação de estruturas que já estejam sensibilizadas.
Para a fisioterapeuta Dra. Mariana Milazzotto, a diferença está entre acordar o corpo e forçá-lo.
“De manhã, o objetivo não deve ser alcançar a maior amplitude possível, mas devolver movimento ao corpo de forma gradual. A pessoa pode se espreguiçar, desde que não faça trancos, não force uma posição dolorosa e não tente corrigir a rigidez com intensidade”, explica.
Espreguiçar não é o mesmo que alongar
O espreguiçamento é um movimento espontâneo, geralmente curto e confortável, que envolve braços, pernas e tronco. Já o alongamento estático costuma manter uma posição por determinado período, levando o músculo a uma sensação de tensão.
As duas práticas não têm necessariamente o mesmo objetivo. A mobilidade leve ao acordar ajuda a retomar o movimento e a percepção corporal. O alongamento estruturado pode fazer parte de um programa de flexibilidade, desde que seja realizado com técnica, progressão e respeito aos limites individuais.
“Sentir que o músculo está sendo mobilizado é diferente de sentir fisgada, dor aguda ou pressão intensa. O corpo não precisa ser empurrado até o limite para ganhar mobilidade”, afirma a Dra. Mariana.
Alongar pela manhã previne a dor?
Não existe uma regra segundo a qual alongar ao acordar evitará dores ao longo do dia. A prevenção depende de um conjunto de fatores, como força muscular, mobilidade, qualidade do sono, ergonomia, nível de atividade física, histórico de lesões e distribuição da carga durante a rotina.
O alongamento pode ajudar a preservar ou ampliar a amplitude de movimento quando faz parte de um programa bem indicado. Mas, sozinho, não corrige fraqueza, sobrecarga, alterações articulares ou padrões repetitivos de movimento.
“Se a pessoa acorda com dor todos os dias, o alongamento não deve ser usado para mascarar o sintoma. É preciso entender se existe rigidez, fraqueza, sobrecarga da coluna, alteração articular ou algum problema que esteja mantendo aquele desconforto”, explica a fisioterapeuta.
Como começar o dia com mais segurança
A recomendação é substituir o alongamento agressivo por movimentos leves e progressivos. Antes de buscar uma grande amplitude, a pessoa pode deixar o corpo se movimentar dentro de uma zona confortável.
Algumas opções incluem:
- movimentar suavemente tornozelos, punhos e ombros;
- flexionar e estender joelhos sem forçar;
- girar a cabeça de forma lenta, sem levar o pescoço ao limite;
- realizar pequenas rotações dos ombros;
- caminhar pela casa por alguns minutos;
- levantar e sentar com controle;
- fazer movimentos suaves de braços e pernas;
- respirar de forma tranquila, sem prender o ar.
A fisioterapeuta ressalta que a rotina matinal não precisa se transformar em um treino completo. “Alguns minutos de movimento leve já podem ajudar a pessoa a perceber como o corpo está naquele dia. Se ela sente uma região mais rígida ou sensível, deve adaptar a amplitude em vez de insistir”, diz.
Quem deve ter mais cuidado
Pessoas com histórico de hérnia de disco, cervicalgia, lombalgia, tendinites, artrose, lesões musculares ou cirurgias recentes devem evitar alongamentos intensos sem orientação. O mesmo vale para quem apresenta dor recorrente, formigamento, perda de força ou limitação de movimento.
Nessas situações, puxar a cabeça, forçar a lombar ou tentar “estalar” a coluna pode aumentar a irritação local. O movimento que traz alívio momentâneo não necessariamente resolve a causa do problema.
Devem ser avaliados por um profissional sintomas como:
- dor que persiste ou piora;
- formigamento ou dormência;
- perda de força;
- dor irradiada para braços ou pernas;
- travamento frequente;
- perda de equilíbrio;
- inchaço ou vermelhidão;
- dor depois de uma queda ou trauma.
“Alongar não deve ser uma prova de resistência. Quando existe uma condição clínica, o exercício precisa ser escolhido com base no diagnóstico e na resposta do corpo, não em uma sequência copiada da internet”, alerta a Dra. Mariana.
O corpo dá sinais durante o movimento
A percepção corporal é uma das principais ferramentas para evitar excesso. Uma mobilidade bem executada deve permitir que a pessoa respire normalmente e retorne à posição inicial sem dor persistente.
Se o desconforto dura várias horas, piora depois do movimento ou aparece acompanhado de fisgada, perda de força e formigamento, a atividade precisa ser interrompida e avaliada.
“O exercício deve deixar o corpo mais preparado, não mais ameaçado. Ao acordar, movimentos pequenos, lentos e variados costumam ser mais adequados do que tentar vencer a rigidez na força”, conclui Dra. Mariana.
Fonte: Portal CidadeVerde.
Confira esta e outras matérias na íntegra pelo link: https://cidadeverde.com/saude/460807/acordar-e-esticar-o-corpo-quando-o-habito-deixa-de-ser-saudavel
