
Popularizados como aliados da pele jovem e da prevenção do envelhecimento, suplementos de colágeno ganharam espaço nas farmácias, redes sociais e rotinas de autocuidado. Mas, segundo a dermatologista Dra. Anelisa Ruaro, a ciência ainda está longe de tratar o produto como indispensável e, em muitos casos, uma alimentação equilibrada pode cumprir o mesmo papel
Nos últimos anos, o colágeno deixou de ser apenas uma proteína estrutural do organismo para se transformar em um fenômeno de consumo. Em pó, cápsulas, balas mastigáveis e até cafés funcionais, o suplemento passou a ocupar espaço nas prateleiras e também no imaginário popular como promessa de pele firme, cabelos fortes e envelhecimento mais lento.
Mas a pergunta que especialistas têm tentado responder com mais cautela é outra: afinal, a suplementação de colágeno é realmente necessária?
Para a dermatologista Dra. Anelisa Ruaro, a resposta, na maioria das vezes, é não. “A ideia é separar o que é ciência do que é marketing e entender em quais casos faz sentido de verdade”, afirma.
Segundo ela, embora existam estudos sugerindo melhora na hidratação e elasticidade da pele com o uso de colágeno oral, as evidências ainda são consideradas limitadas e heterogêneas pela comunidade científica.
“Não há garantias e nem estudos mostrando que o colágeno por via oral realmente vá ser direcionado para a pele. Existem estudos recentes mostrando melhora de hidratação e elasticidade, mas ainda são pesquisas muito limitadas”, explica.
A discussão ganhou força justamente porque o envelhecimento natural reduz gradualmente a produção da proteína pelo organismo. Estudos apontam que a síntese de colágeno começa a diminuir a partir dos 20 a 30 anos, em média cerca de 1% ao ano.
Apesar disso, especialistas alertam que consumir colágeno não significa, necessariamente, “repor” colágeno diretamente na pele.
O que acontece quando o colágeno é ingerido
Ao contrário do que muitas campanhas publicitárias sugerem, o organismo não absorve o colágeno intacto.
“Quando ingerimos colágeno, ele é quebrado em aminoácidos no trato digestivo. Esses aminoácidos não necessariamente voltam a se recompor em colágeno na pele. Eles podem ser utilizados por qualquer tecido do organismo”, explica a médica.
Esse é um dos principais pontos do debate científico atual. Parte dos pesquisadores sustenta que determinados peptídeos bioativos poderiam estimular fibroblastos, células responsáveis pela produção de colágeno, enquanto outra parcela aponta que ainda faltam estudos independentes, de longo prazo e com metodologias mais robustas.
A própria literatura científica reconhece que os resultados disponíveis ainda apresentam limitações importantes, como pequeno número de participantes, duração curta dos estudos e possível influência da indústria de suplementos.
Pele e articulações concentram principais evidências
Entre as aplicações mais estudadas, pele e articulações aparecem como os campos com resultados mais consistentes, embora ainda debatidos.
“As evidências são moderadas no caso da suplementação para pele e articulações, sendo contestadas por muitos especialistas. Já para cabelos, o nível de evidência científica é muito baixo”, afirma Dra. Anelisa.
Nesses casos, segundo ela, muitos dermatologistas preferem apostar em substâncias precursoras da síntese natural de colágeno. “Para cabelo, preferimos o uso de precursores de colágeno, como o silício orgânico.”
Pesquisas recentes apontam que alguns tipos de colágeno hidrolisado podem apresentar melhora discreta na elasticidade e hidratação da pele após uso contínuo entre oito e doze semanas. Ainda assim, a médica reforça que isso não transforma o suplemento em necessidade universal. “A suplementação oral tem base científica mais sólida principalmente para saúde articular, especialmente em casos de artrose, e para melhora da elasticidade e hidratação da pele em pessoas acima dos 30 ou 40 anos”, explica.
Alimentação ainda é o principal caminho
Na avaliação da dermatologista, o entusiasmo em torno do colágeno tem relação direta com o forte apelo comercial criado em torno do envelhecimento saudável e da estética preventiva.
“Existe muito marketing atrelado a alta popularidade desse produto. Por outro lado, existem poucos estudos robustos que justifiquem a popularidade desses produtos. E sabemos que uma alimentação rica em proteínas pode facilmente substituir a suplementação oral de colágeno.”
Instituições médicas e nutricionais também reforçam que suplementos não substituem uma alimentação equilibrada e devem ser utilizados de forma individualizada.
Segundo Dra. Anelisa, a indicação precisa considerar fatores como idade, ingestão proteica, condições articulares e avaliação clínica.
Para pacientes que realmente podem se beneficiar, os protocolos variam conforme o objetivo. Na saúde da pele, por exemplo, um dos formatos mais utilizados é o colágeno hidrolisado em peptídeos bioativos.
“Para a pele, usamos principalmente o hidrolisado em doses de 2,5 gramas por dia por pelo menos oito a doze semanas para notar alguma melhora da hidratação e elasticidade”, explica.
Já para articulações, costuma-se utilizar o colágeno tipo 2 não desnaturado, com doses variáveis conforme o caso clínico.
No fim, o consenso entre especialistas parece caminhar menos para fórmulas milagrosas e mais para hábitos sustentáveis.
Sono adequado, alimentação rica em proteínas, proteção solar, atividade física e controle do tabagismo seguem sendo apontados como os fatores mais relevantes para preservar a saúde da pele e retardar a perda natural de colágeno ao longo da vida.
“Não existe milagre quando o assunto é envelhecimento saudável. A ciência evolui constantemente e alguns estudos mostram benefícios pontuais da suplementação, mas isso não significa que o colágeno seja uma solução universal. O mais importante ainda é manter hábitos saudáveis, alimentação equilibrada e acompanhamento individualizado. Precisamos olhar para esse tema com menos promessa e mais evidência científica”, finaliza a dermatologista Dra. Anelisa Ruaro.
Fonte: Portal CidadeVerde.
Confira esta e outras matérias na íntegra pelo link: https://cidadeverde.com/noticias/456394/colageno-em-capsulas-po-e-gummies-moda-ou-necessidade
