
Imagine um país onde metade dos carros vendidos já não possui escapamento. Parece futurista? Na China, essa realidade aconteceu em 2024, quando os veículos de energia nova (elétricos e híbridos plug-in) superaram pela primeira vez a marca de 50% das vendas totais. Enquanto isso, o Brasil ainda debate como acelerar sua transição eletromobilidade sem abandonar milhões de motoristas dependentes de combustíveis líquidos. A pergunta que paira no ar é: o que podemos aprender com quem já trilhou esse caminho?
Veículos elétricos (BEVs) funcionam exclusivamente com baterias recarregáveis, enquanto os híbridos combinam motor a combustão com sistemas elétricos — os híbridos plug-in (PHEVs) permitem recarga externa, funcionando como elétricos em trajetos curtos e como híbridos em viagens longas. A China domina esse ecossistema: em 2024, vendeu 12,9 milhões de veículos de energia nova, um crescimento de 35,5% sobre 2023, segundo a Associação de Fabricantes de Automóveis da China (CAAM). A Noruega, pioneira desde 2012, já alcançou 93% de market share para elétricos em 2024. Já o Brasil, com apenas 0,4% de participação de elétricos nas vendas em 2023 (dados ANFAVEA), ainda engatinha nessa jornada — mas possui uma vantagem única: uma matriz elétrica 83% renovável, ideal para abastecer uma frota limpa.
O sucesso chinês não foi acidental. Pequim investiu mais de US$ 57 bilhões em subsídios entre 2009 e 2023, criou cotas obrigatórias para fabricantes (20% das vendas devem ser de energia nova) e desenvolveu uma cadeia de suprimentos verticalizada: a CATL e a BYD dominam 60% do mercado global de baterias. O resultado? O preço médio de um carro elétrico chinês caiu 47% entre 2015 e 2023. Para o Brasil, a lição é clara: incentivos fiscais consistentes e longos — não pontuais — são essenciais. Além disso, a parceria recente entre a BYD e a Caoa para produção local em Camaçari (BA), iniciada em 2024, mostra que atrair investimentos de montadoras globais pode acelerar a curva de aprendizado e reduzir custos via escala.
A União Europeia, com sua meta de proibir carros a combustão em 2035, investiu € 3,5 bilhões apenas em infraestrutura de recarga entre 2021 e 2023. Hoje, existem mais de 630 mil pontos de recarga no continente, com padronização de conectores e interoperabilidade de pagamentos. A Holanda, líder em densidade, possui um ponto para cada 5 km de estrada. O Brasil, com cerca de 3.800 eletropostos (dados ABVE, 2024), concentra 70% deles em São Paulo e Rio de Janeiro. A lição europeia é que sem uma rede robusta e democrática, o consumidor médio não migra — especialmente em um país continental como o nosso, onde viagens longas são comuns. O governo federal precisa coordenar um plano nacional de instalação em rodovias federais e cidades médias, não apenas capitais.
O principal obstáculo no Brasil é o custo: um carro elétrico popular custa R$ 150mil, enquanto um compacto a combustão sai por R$ 70 mil. A carga tributária sobre veículos importados (35% de IPI + 18% de PIS/COFINS) inibe a entrada de modelos acessíveis. No entanto, o híbrido flex — que combina etanol com eletrificação — emerge como uma solução natalícia. A Toyota já produz o Corolla Flex Hybrid no Brasil desde 2019, e a Stellantis anunciou em 2024 investimentos em híbridos flex para 2025. Essa tecnologia híbrida permite reduzir emissões em 40% sem depender de infraestrutura de recarga, alinhando-se à matriz etanol brasileira. A oportunidade é única: o Brasil pode criar um modelo híbrido-flex global, exportando tecnologia adaptada aos países em desenvolvimento.
A transição para a mobilidade elétrica no Brasil não precisa ser uma cópia da China ou da Europa — deve ser uma adaptação inteligente. Combinar nossa vocação para etanol, matriz elétrica limpa e parcerias industriais, podemos pular etapas. Nos próximos cinco anos, espera-se que os híbridos flex dominem as vendas nacionais, enquanto a recarga ultrarrápida (tecnologia de 800V, já disponível na China) se populariza. O futuro não é apenas elétrico; é híbrido, flexível e, acima de tudo, brasileiro. A questão não é mais se vamos transitar, mas quão rápido aprenderemos com quem já está à frente.
Fonte: Portal CidadeVerde.
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