Teresina - PI, Segunda Feira, 18 de Maio de 2026
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Do etanol à tomada: como o Brasil pode virar referência na corrida elétrica global

Imagine um país onde metade dos carros vendidos já não possui escapamento. Parece futurista? Na China, essa realidade aconteceu em 2024, quando os veículos de energia nova (elétricos e híbridos plug-in) superaram pela primeira vez a marca de 50% das vendas totais. Enquanto isso, o Brasil ainda debate como acelerar sua transição eletromobilidade sem abandonar milhões de motoristas dependentes de combustíveis líquidos. A pergunta que paira no ar é: o que podemos aprender com quem já trilhou esse caminho?

Veículos elétricos (BEVs) funcionam exclusivamente com baterias recarregáveis, enquanto os híbridos combinam motor a combustão com sistemas elétricos — os híbridos plug-in (PHEVs) permitem recarga externa, funcionando como elétricos em trajetos curtos e como híbridos em viagens longas. A China domina esse ecossistema: em 2024, vendeu 12,9 milhões de veículos de energia nova, um crescimento de 35,5% sobre 2023, segundo a Associação de Fabricantes de Automóveis da China (CAAM). A Noruega, pioneira desde 2012, já alcançou 93% de market share para elétricos em 2024. Já o Brasil, com apenas 0,4% de participação de elétricos nas vendas em 2023 (dados ANFAVEA), ainda engatinha nessa jornada — mas possui uma vantagem única: uma matriz elétrica 83% renovável, ideal para abastecer uma frota limpa.

O sucesso chinês não foi acidental. Pequim investiu mais de US$ 57 bilhões em subsídios entre 2009 e 2023, criou cotas obrigatórias para fabricantes (20% das vendas devem ser de energia nova) e desenvolveu uma cadeia de suprimentos verticalizada: a CATL e a BYD dominam 60% do mercado global de baterias. O resultado? O preço médio de um carro elétrico chinês caiu 47% entre 2015 e 2023. Para o Brasil, a lição é clara: incentivos fiscais consistentes e longos — não pontuais — são essenciais. Além disso, a parceria recente entre a BYD e a Caoa para produção local em Camaçari (BA), iniciada em 2024, mostra que atrair investimentos de montadoras globais pode acelerar a curva de aprendizado e reduzir custos via escala.

A União Europeia, com sua meta de proibir carros a combustão em 2035, investiu € 3,5 bilhões apenas em infraestrutura de recarga entre 2021 e 2023. Hoje, existem mais de 630 mil pontos de recarga no continente, com padronização de conectores e interoperabilidade de pagamentos. A Holanda, líder em densidade, possui um ponto para cada 5 km de estrada. O Brasil, com cerca de 3.800 eletropostos (dados ABVE, 2024), concentra 70% deles em São Paulo e Rio de Janeiro. A lição europeia é que sem uma rede robusta e democrática, o consumidor médio não migra — especialmente em um país continental como o nosso, onde viagens longas são comuns. O governo federal precisa coordenar um plano nacional de instalação em rodovias federais e cidades médias, não apenas capitais.

O principal obstáculo no Brasil é o custo: um carro elétrico popular custa R$ 150mil, enquanto um compacto a combustão sai por R$ 70 mil. A carga tributária sobre veículos importados (35% de IPI + 18% de PIS/COFINS) inibe a entrada de modelos acessíveis. No entanto, o híbrido flex — que combina etanol com eletrificação — emerge como uma solução natalícia. A Toyota já produz o Corolla Flex Hybrid no Brasil desde 2019, e a Stellantis anunciou em 2024 investimentos em híbridos flex para 2025. Essa tecnologia híbrida permite reduzir emissões em 40% sem depender de infraestrutura de recarga, alinhando-se à matriz etanol brasileira. A oportunidade é única: o Brasil pode criar um modelo híbrido-flex global, exportando tecnologia adaptada aos países em desenvolvimento.

A transição para a mobilidade elétrica no Brasil não precisa ser uma cópia da China ou da Europa — deve ser uma adaptação inteligente. Combinar nossa vocação para etanol, matriz elétrica limpa e parcerias industriais, podemos pular etapas. Nos próximos cinco anos, espera-se que os híbridos flex dominem as vendas nacionais, enquanto a recarga ultrarrápida (tecnologia de 800V, já disponível na China) se populariza. O futuro não é apenas elétrico; é híbrido, flexível e, acima de tudo, brasileiro. A questão não é mais se vamos transitar, mas quão rápido aprenderemos com quem já está à frente.

 

Fonte: Portal CidadeVerde.
Confira esta e outras matérias na íntegra pelo link: https://cidadeverde.com/energiaativa/133802/do-etanol-a-tomada-como-o-brasil-pode-virar-referencia-na-corrida-eletrica-globa

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