
A escalada das tensões no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta, acendeu um alerta entre especialistas em infraestrutura digital sobre possíveis impactos no funcionamento da internet no Brasil e em outros países.
Embora invisíveis para a maior parte da população, os cabos submarinos de fibra óptica são responsáveis por cerca de 99% do tráfego internacional de internet, segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT). Mais grossos que o braço de um homem adulto, esses fios sustentam desde operações bancárias até redes sociais, serviços de streaming e comunicações globais.
Leonardo Cardoso, diretor da TI Safe, empresa de cibersegurança, afirma que um eventual ataque ou rompimento de cabos na região do Oriente Médio pode provocar efeitos em cadeia em toda a rede mundial.
“O Brasil depende quase 100% dessa estrutura aquática. Se houver rompimentos, o país pode ter dificuldade para acessar dados hospedados no exterior ou sistemas internacionais”, explica.
O especialista ressalta que, apesar de os cabos do Oriente Médio não estarem diretamente conectados ao Brasil, toda a infraestrutura global é interligada e, por isso, impactos em um ponto estratégico acabam afetando outros países.
Foto: Gov.br/submarinecablemap.com

Pablo Alencar, sócio da Valor Capital, compara o funcionamento da internet a uma rodovia global de dados. Segundo ele, a rede não para de funcionar, mas pode enfrentar “congestionamentos”. “Quando um cabo rompe, o tráfego é redirecionado para outras rotas. O problema é que essas rotas têm limite de capacidade. Isso gera lentidão e sobrecarga”, afirma.
Ele relembra um episódio ocorrido em 2024, quando um rompimento causado por uma âncora de navio provocou impactos em diferentes regiões do mundo.
“O tráfego mundial acabou sendo redirecionado para o Brasil, porque Fortaleza é um dos principais hubs de cabos submarinos do planeta. Isso sobrecarregou a estrutura e atingiu usuários em todo o país”, diz.
Na prática, os especialistas avaliam que qualquer atividade cotidiana conectada à internet depende diretamente desses cabos. Streaming, mensagens em aplicativos, leitura de notícias, compras online e serviços financeiros são alguns exemplos. “Se esses cabos estão sobrecarregados ou rompidos, há atraso na troca de dados. O usuário sente isso imediatamente”, completa Alencar.
Por que o conflito no Estreito de Ormuz preocupa?
Além de ser uma das principais rotas marítimas do mundo, o Estreito de Ormuz concentra estruturas estratégicas para o funcionamento da internet global. De acordo com Cardoso, apesar das proteções contra pressão da água e fenômenos naturais, conflitos militares representam uma ameaça maior.
“Torpedos, bombas ou submarinos preparados para interceptar sinais podem causar danos relevantes a esses cabos”, diz.
Caso seja danificado, os reflexos são sentidos rapidamente. “Se isso acontece, o aplicativo do banco trava, o Pix demora, a maquininha de cartão não autoriza compras e o streaming fica carregando sem reproduzir o vídeo”, explica Pablo Alencar.
“Leva semanas para localizar o ponto exato da ruptura e concluir o reparo. Não é exagero dizer que um problema nos cabos próximos ao Estreito de Ormuz teria efeitos no Brasil”, acrescenta.
Cardoso afirma ainda que o setor financeiro tende a ser um dos primeiros afetados em situações de instabilidade. “Os bancos dependem de conexões internacionais para processar operações. Existem rotas alternativas, mas elas não suportam toda a demanda”, diz.
Foto: Gov.br/Divulgação

Como os cabos submarinos funcionam?
Os cabos submarinos são instalados por navios especializados operados por um grupo seleto de empresas globais, como SubCom, Alcatel Submarine Networks, NEC Corporation e HMN Tech. Em áreas próximas ao litoral, essas estruturas chegam a ser enterradas para evitar danos causados por âncoras, pesca e embarcações.
Esses fios podem ficar a até 4 mil metros de profundidade e possuem diferentes camadas de proteção. “Eles transmitem dados na velocidade da luz e são preparados para suportar pressão extrema, terremotos e até mordidas de animais marinhos”, afirma Cardoso.
Nos últimos anos, gigantes da tecnologia como Google e Meta passaram a investir bilhões nesse mercado para ampliar a capacidade de serviços digitais e inteligência artificial. O Brasil também ocupa posição estratégica nessa rede global, principalmente por meio de Fortaleza.
Quando há rompimentos, embarcações especializadas são enviadas para localizar o ponto exato do dano no fundo do oceano. “Primeiro é preciso encontrar a ruptura. Só depois começa o trabalho de reparo e reconexão do cabo”, explica Pablo Alencar.
Foto: submarinecablemap.com

O mito dos satélites
Apesar da percepção de que a internet funciona majoritariamente por satélites, dados da UIT mostram que aproximadamente 99% de todo o tráfego internacional de dados é transmitido por cabos submarinos de fibra óptica espalhados pelo fundo dos oceanos. Os satélites representam menos de 1% desse fluxo global de informações de longa distância.
Segundo Cardoso, se essas estruturas aquáticas forem comprometidas, o resultado pode ser sentido em larga escala.
“Isso gera latência, lentidão nas rotas de internet e pode provocar um apagão digital em diferentes serviços, ou seja, o inferno na Terra”, conclui.
Fonte: Portal CidadeVerde.
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