O pedido da vez é para que a alíquota de importação dos pneus de passeio passe de 25% para 35%.
Pneu chinês virou a nova ameaça à indústria brasileira | Foto: Reprodução/ PixabayA discussão sobre o aumento de impostos para produtos importados ganhou força em outro segmento da indústria brasileira além do setor automotivo. Após a mobilização das montadoras em defesa da elevação das tarifas sobre veículos eletrificados, fabricantes nacionais de pneus voltaram a pressionar o governo federal por medidas de proteção contra a concorrência estrangeira.
O pedido da vez é para que a alíquota de importação dos pneus de passeio passe de 25% para 35%. O tema foi levado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços durante reunião realizada nesta quarta-feira (20) com o ministro Márcio Elias Rosa.
A reivindicação já vinha sendo debatida nos últimos anos. Em 2024, a Câmara de Comércio Exterior elevou temporariamente a tarifa de importação dos pneus de automóveis de 16% para 25%. Em 2025, a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos solicitou novamente o aumento para 35%, mas o governo decidiu manter a taxa em 25% por mais um ano.
Agora, o setor tenta reabrir a discussão alegando perda acelerada de espaço para os importados. Segundo dados apresentados pela ANIP, os fabricantes nacionais responderam por apenas 31% das vendas totais no primeiro quadrimestre de 2026 — o menor índice já registrado pela entidade. Em 2019, a participação era inversa: a indústria instalada no país detinha 69% do mercado, enquanto os produtos importados representavam 31%.
Ainda conforme a associação, as vendas de pneus produzidos no Brasil recuaram 5,8% nos quatro primeiros meses do ano. Foram comercializadas 11,9 milhões de unidades no período, cerca de 700 mil a menos do que no mesmo intervalo do ano anterior. O segmento de reposição foi o mais afetado pela concorrência internacional.
Setor teme fechamento de fábricas
Na avaliação da ANIP, a redução da participação da indústria nacional ameaça toda a cadeia produtiva ligada ao setor. A entidade afirma que há risco de fechamento de unidades industriais, demissões e impacto sobre fornecedores.
O presidente da associação, Rodrigo Navarro, afirmou que o país precisa decidir se pretende manter uma indústria nacional de pneus ou depender do mercado externo.
Segundo o dirigente, os fabricantes brasileiros enfrentam concorrência desleal, com produtos importados chegando ao país a preços abaixo do custo da matéria-prima no mercado internacional. A entidade também cita possíveis práticas de dumping e descumprimento de exigências ambientais.
Atualmente, a indústria nacional de pneus reúne 11 empresas, entre elas Bridgestone, Continental, Dunlop, Goodyear, Michelin, Pirelli e Prometeon. O setor possui 19 fábricas distribuídas em sete estados e gera cerca de 35 mil empregos diretos e mais de 500 mil indiretos, conforme a associação.
Além da elevação da tarifa para 35%, a ANIP defende medidas como licenciamento não automático para importações, fiscalização mais rígida das normas ambientais, maior rapidez em processos antidumping e incentivo à compra de pneus nacionais pelo poder público.
A entidade também afirma que os importadores acumulam um passivo ambiental de aproximadamente 500 mil toneladas de pneus descartados irregularmente nos últimos 15 anos, com base em dados do Ibama. Já a indústria nacional afirma ter investido R$ 1,8 bilhão em programas de destinação correta desses materiais.
Importadores criticam proposta
Do lado oposto da discussão, a Associação Brasileira dos Importadores e Distribuidores de Pneus argumenta que um novo aumento do imposto de importação teria impacto direto no bolso do consumidor.
Segundo a entidade, um pneu vendido por R$ 500 teria passado a custar R$ 580 quando a tarifa era de 16%, chegando a R$ 625 com a alíquota atual de 25%. Caso o imposto suba para 35%, o valor poderia atingir R$ 675.
O presidente da associação, Ricardo Alípio, afirma que o reajuste representaria um aumento superior a 20% no preço final pago pelo consumidor.
A entidade avalia que os impactos seriam mais sentidos por motoristas de aplicativo, taxistas, empresas de transporte e trabalhadores que dependem do veículo para exercer suas atividades. Também haveria reflexos nos custos logísticos e no transporte de mercadorias, com possível efeito sobre a inflação.
Outro argumento apresentado pelos importadores é que o aumento atingiria inclusive pneus de medidas menos produzidas no Brasil, como aros 13 e 14, normalmente utilizados em veículos mais antigos.
Para a ABIDIP, o problema da indústria nacional não estaria relacionado à demanda, mas à competitividade. A associação defende o retorno da alíquota para 16% e argumenta que o mercado automotivo segue aquecido, impulsionado pelo crescimento das vendas de veículos leves e comerciais.
Debate repete disputa do setor automotivo
A discussão em torno dos pneus segue uma lógica semelhante à observada no setor automotivo. De um lado, a indústria nacional defende maior proteção tarifária para enfrentar produtos estrangeiros vendidos a preços considerados artificialmente baixos. Do outro, importadores afirmam que tarifas mais altas reduzem a concorrência e aumentam os custos para o consumidor.
No caso dos pneus, porém, o impacto pode ser ainda mais sensível, já que o item está diretamente ligado à manutenção e à segurança dos veículos. Importadores alertam que aumentos sucessivos podem levar parte dos motoristas a adiar a troca dos pneus, elevando riscos nas estradas.
Já a ANIP sustenta que o debate vai além da proteção às fabricantes e envolve a preservação de toda a cadeia produtiva ligada ao setor, incluindo produtores de borracha, aço, componentes têxteis e químicos utilizados na fabricação dos pneus.
Confira esta e outras matérias na íntegra pelo link: https://www.meionews.com/noticias/economia/pneu-chines-virou-a-nova-ameaca-a-industria-automotiva-no-brasil-entenda-564480
