{"id":24889,"date":"2026-09-08T09:32:18","date_gmt":"2026-09-08T12:32:18","guid":{"rendered":"https:\/\/fatoelado.com\/?p=24889"},"modified":"2026-09-08T09:32:18","modified_gmt":"2026-09-08T12:32:18","slug":"violencia-domestica-interna-15-mulheres-por-dia-com-quadro-de-politraumatismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fatoelado.com\/?p=24889","title":{"rendered":"Viol\u00eancia dom\u00e9stica interna 15 mulheres por dia com quadro de politraumatismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/cidadeverde.com\/assets\/uploads\/colecoes\/13919\/violencia-mulher-domestica-sofrimento-depressao_(2).jpeg\" alt=\"Violencia contra mulher, feminic\u00eddio, sangue\" \/><\/p>\n<p>Ao menos 15 mulheres foram internadas por dia em hospitais do Brasil entre 2008 e 2023 em decorr\u00eancia da viol\u00eancia dom\u00e9stica. O dado \u00e9 de um estudo da Unifesp (Universidade Federal de S\u00e3o Paulo) publicado na revista cient\u00edfica Ci\u00eancia &amp; Sa\u00fade Coletiva.<\/p>\n<p>A pesquisa usou intelig\u00eancia artificial para analisar 90.798 interna\u00e7\u00f5es de mulheres de 20 a 59 anos registradas no SIH (Sistema de Informa\u00e7\u00f5es Hospitalares) do SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade). O objetivo era identificar padr\u00f5es que passam despercebidos em bases de dados extensas.<\/p>\n<p>Os resultados mostram que grande parte dessas mulheres chega ao hospital com politraumatismo, quadro geralmente ligado a atropelamentos ou acidentes graves. No caso das v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica, por\u00e9m, a origem \u00e9 a agress\u00e3o por armas brancas ou objetos cortantes.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;\u00c9 um caso de viol\u00eancia que chega como se fosse um atropelamento, um politraumatismo. \u00c9 absurdo&#8221;, diz Maria Elisabete Salvador, professora do Departamento de Inform\u00e1tica em Sa\u00fade da Escola Paulista de Medicina e uma das autoras do estudo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Um algoritmo de aprendizado de m\u00e1quina, chamado LDA, separou as interna\u00e7\u00f5es em nove perfis cl\u00ednicos recorrentes. O mais comum, com 17,2% dos casos, re\u00fane mulheres jovens, de 20 a 29 anos, operadas \u00e0s pressas por politraumatismos ou ferimentos no t\u00f3rax causados por objeto cortante.<\/p>\n<p>Outro perfil identificado re\u00fane mulheres de 40 a 59 anos internadas ap\u00f3s agress\u00e3o por for\u00e7a corporal ou objeto contundente. J\u00e1 o grupo mais grave, de 5,5% dos casos, envolve agress\u00e3o por arma de fogo ou envenenamento, com necessidade de interna\u00e7\u00e3o em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e alto risco de morte.<\/p>\n<p>O algoritmo tamb\u00e9m revelou associa\u00e7\u00f5es entre o tipo de les\u00e3o e a arma usada. A associa\u00e7\u00e3o mais forte liga traumatismos no punho e na m\u00e3o a agress\u00f5es por objeto cortante, um padr\u00e3o que a medicina legal associa a ferimentos de defesa, quando a v\u00edtima tenta se proteger do ataque.<\/p>\n<h2><strong>Prontu\u00e1rios m\u00e9dicos revelam detalhes das agress\u00f5es<\/strong><\/h2>\n<p>Uma segunda pesquisa dos mesmos autores, ainda n\u00e3o publicada, aprofunda esse retrato a partir de prontu\u00e1rios eletr\u00f4nicos de hospitais da rede SPDM (Associa\u00e7\u00e3o Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), mantenedora do Hospital S\u00e3o Paulo, da Unifesp. Os dados s\u00e3o preliminares.<\/p>\n<p>Os pesquisadores usaram um modelo de intelig\u00eancia artificial generativa, o Llama-3, para ler o texto livre escrito por m\u00e9dicos em 720 atendimentos a mulheres de 18 a 64 anos v\u00edtimas de viol\u00eancia, entre 2020 e mar\u00e7o de 2026. A ideia foi captar detalhes que n\u00e3o aparecem em campos fechados dos sistemas hospitalares, como o instrumento usado no ataque e a parte do corpo atingida.<\/p>\n<p>Em 60,2% dos textos analisados n\u00e3o havia nenhuma informa\u00e7\u00e3o sobre o instrumento da agress\u00e3o. Quando havia, o soco foi o mais citado, em 14,2% dos casos, seguido por chute, ferimento com faca ou objeto cortante e arma de fogo.<\/p>\n<p>Rosto, cabe\u00e7a e bra\u00e7o foram as regi\u00f5es mais lesionadas. Agress\u00f5es com arma de fogo aumentaram em quase oito vezes a chance de les\u00e3o no abd\u00f4men. Facas e objetos cortantes elevaram o risco de ferimentos na mesma regi\u00e3o e no t\u00f3rax. Golpes com garrafa ou vidro multiplicaram por seis a chance de les\u00e3o na m\u00e3o.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia sexual tamb\u00e9m apareceu associada a les\u00f5es genitais com for\u00e7a expressiva, quase 19 vezes maior do que nos demais casos.<\/p>\n<h2><strong>Dados de S\u00e3o Paulo indicam que viol\u00eancia deve continuar em alta<\/strong><\/h2>\n<p>Um terceiro estudo do grupo, publicado na Revista de Sa\u00fade P\u00fablica, usou 80.148 notifica\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia contra mulheres de 20 a 59 anos na cidade de S\u00e3o Paulo, entre 2013 e 2023.<\/p>\n<p>Diferentemente dos outros dois, essa pesquisa n\u00e3o se baseia em interna\u00e7\u00f5es, mas em notifica\u00e7\u00f5es do Sinan (Sistema de Informa\u00e7\u00e3o de Agravos de Notifica\u00e7\u00e3o), que re\u00fane tamb\u00e9m casos menos graves atendidos na rede p\u00fablica e privada.<\/p>\n<p>A idade m\u00e9dia das v\u00edtimas foi de 34 anos. Mulheres pardas e pretas somam 52,9% das v\u00edtimas, enquanto s\u00e3o cerca de 32,6% dos moradores da cidade. A viol\u00eancia f\u00edsica foi o tipo mais notificado, seguida da psicol\u00f3gica e da sexual. Os agressores s\u00e3o majoritariamente homens, sobretudo c\u00f4njuges e ex-c\u00f4njuges.<\/p>\n<p>Sob efeito de \u00e1lcool, o agressor esteve associado a preval\u00eancia 32% maior de viol\u00eancia sexual e 17% maior de f\u00edsica, mas menor de psicol\u00f3gica. Mulheres gr\u00e1vidas apresentaram quase 2,5 vezes mais chances de sofrer viol\u00eancia sexual do que as n\u00e3o gestantes.<\/p>\n<p>Entre os achados, o que mais surpreendeu a equipe foi a viol\u00eancia sexual contra gestantes. &#8220;A gente n\u00e3o tinha essa no\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Salvador. Segundo ela, o pr\u00e9-natal facilita a notifica\u00e7\u00e3o entre gestantes.<\/p>\n<p>Com o algoritmo Prophet, projetaram crescimento em todos os tipos de viol\u00eancia nos pr\u00f3ximos 24 meses, at\u00e9 12 casos por 100 mil mulheres.<\/p>\n<p>&#8220;O aumento das notifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o significa necessariamente que a viol\u00eancia est\u00e1 crescendo. Pode refletir mais coragem das v\u00edtimas para denunciar, ou uma melhora na qualidade dos registros&#8221;, pondera o pesquisador Andr\u00e9 Shimaoka, tamb\u00e9m pesquisador do departamento de inform\u00e1tica da Unifesp e autor dos estudos.<\/p>\n<h2><strong>Por que usar intelig\u00eancia artificial<\/strong><\/h2>\n<p>Os pesquisadores defendem que a subnotifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos maiores obst\u00e1culos ao enfrentamento da viol\u00eancia dom\u00e9stica no Brasil. Sem registros completos, dizem, as v\u00edtimas ficam invis\u00edveis para o sistema de sa\u00fade e n\u00e3o recebem acompanhamento adequado.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 municiar as equipes de sa\u00fade, da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria aos hospitais, com dados relevantes para a tomada de decis\u00e3o&#8221;, explica Shimaoka.<\/p><\/blockquote>\n<p>Os tr\u00eas estudos foram financiados pelo Fundo Nacional de Sa\u00fade, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, e monitorados pelo Decit (Departamento de Ci\u00eancia e Tecnologia) da mesma pasta. A pesquisa nasceu de um edital de 2024 que pedia \u00e0s universidades da \u00e1rea da sa\u00fade estudos sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica, tema priorizado tamb\u00e9m por outras ag\u00eancias de fomento.<\/p>\n<p>Para os pesquisadores, a intelig\u00eancia artificial viabiliza analisar grandes volumes de dados: no estudo das interna\u00e7\u00f5es, foram processados mais de 193 milh\u00f5es de registros at\u00e9 os 90.798 casos de viol\u00eancia contra mulheres.<\/p>\n<p>A pesquisadora destaca ainda a import\u00e2ncia de aplicar essa tecnologia com responsabilidade em uma \u00e1rea sens\u00edvel como a sa\u00fade. Segundo ela, foi isso que motivou o grupo a desenvolver o HRSP-AI (Health Research Standard Process for Artificial Intelligence), framework metodol\u00f3gico criado pelos pr\u00f3prios autores e usado nos tr\u00eas estudos, com etapas espec\u00edficas para prote\u00e7\u00e3o de dados sens\u00edveis e adequa\u00e7\u00e3o \u00e9tica.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Uma coisa \u00e9 voc\u00ea estudar o passado, outra \u00e9 voc\u00ea conseguir prever o que vem pela frente. Isso, sim, \u00e9 fundamental&#8221;, diz Salvador. Segundo ela, a tecnologia ajuda a compreender casos e antecipar cen\u00e1rios, orientando a preven\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>O projeto Sa\u00fade P\u00fablica tem apoio da Umane, associa\u00e7\u00e3o civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: Portal CidadeVerde.<br \/>\nConfira esta e outras mat\u00e9rias na \u00edntegra pelo link: https:\/\/cidadeverde.com\/ultimas\/462486\/violencia-domestica-interna-15-mulheres-por-dia-com-quadro-de-politraumatismo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao menos 15 mulheres foram internadas por dia em hospitais do Brasil entre 2008 e 2023 em decorr\u00eancia da viol\u00eancia dom\u00e9stica. O dado \u00e9 de um estudo da Unifesp (Universidade Federal de S\u00e3o Paulo) publicado na revista cient\u00edfica Ci\u00eancia &amp; Sa\u00fade Coletiva. 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